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Entre a Arte-Educação e a Arteterapia

Antes de buscarmos os possíveis paralelos e as diferenças entre a arte-educação contemporânea e a arteterapia, é necessário pensarmos um pouco sobre a arte pela arte e que ela nunca dependeu dessas associações para existir. É preciso muito cuidado também, para que associações não se tornem um meio para conferir funções à arte. As funções são qualidade da objetividade e a arte justamente se desenvolve nos meios subjetivos.

Foto do Artista Plástico e Arte-Educador Helio Rodrigues

Funções reduzem ou até mesmo eliminam a autonomia da arte, aproximando-a de critérios pré determinados, modelos prontos e julgamentos presos. A descaracterizam como linguagem independente capaz de substituir até mesmo a linguagem verbal.

Sugiro que os profissionais da área educacional e da saúde considerem, que toda função traz em si um objetivo finito; o que é incompatível com a amplitude e infinitude oferecida pela arte.

Um processo ou produto artístico não pode ser rendido aos preceitos educacionais, assim como a arteterapia não pode funcionalizar a arte transformando-a apenas em uma ferramenta a serviço da saúde psíquica. Isso seria reduzidor do processo artístico em si.

Sabemos que, tanto a educação quanto a saúde psíquica são influenciadas pela sensibilidade e subjetividades que por acaso também estão contidas na arte e a ela interessa a liberdade de transitar entre sentimentos e opiniões da forma mais ampla e livre.

A linguagem da arte é, em grande parte, construída por elementos simbólicos. Então, quando o acesso ao simbólico é usado como recurso “decodificador” das manifestações artísticas de crianças, por exemplo, os arte-educadores e arteterapeutas podem ser tentados a objetivar suas atuações buscando a “cura” de seus alunos, ou pacientes no caso dos terapeutas, o que pode afastar seus atendidos de expressões artísticas legítimas. O principal e perigoso efeito dessa objetivação é o esvaziamento da arte e seu consequente distanciamento da linguagem verdadeiramente livre que a constitui.

Observo que muitos professores de arte elegem a simbologia para nortear suas ações e então com facilidade confundem e misturam os papéis que competem à educação e à terapia respectivamente. Pessoalmente, enquanto cumpro meu papel arte-educador, o que me interessa em especial é promover a opinião dos alunos, dos formandos e dos professores com os quais trabalho. E quanto aos sentimentos e emoções, dedico o meu respeito.

Do modernismo à arte contemporânea vamos observar a forte e inequívoca presença da opinião, tanto em quem produz como em quem a contempla. Então, ao considerarmos o atual momento social, repleto de direcionamentos, algoritmos e outros recursos de manipulação, o exercício da opinião oferecido pelo que considero uma arte-educação também contemporânea, deve produzir contrapontos frente a essa realidade para que nossas crianças não se tornem presas fáceis desse sistema controlador.

Para se preservar a integridade da arte, tanto a arte-educação quanto a arteterapia, precisam respeitar a poética, porque é dela que se constitui e se nutre a arte. Sugiro então, que os profissionais de ambas as áreas revisitem constantemente seus conceitos sobre a poética e a estética, porque elas são valores humanos que se transformam através dos tempos.

Além de sua forte condição promotora do autoconhecimento, nenhuma outra forma de conhecimento suplanta a arte. Na verdade, todas as outras fontes podem se beneficiar e serem fortalecidas por ela. Por isso a arte-educação contemporânea deve instigar os alunos ao exercício de suas opiniões, bem como o resgate de seus poderes de transformação e de construção de suas próprias estéticas e capacidades poéticas.

Talvez o que aproxima a arte-educação e a arteterapia seja mesmo o forte componente simbólico presente em toda produção artística, sendo que, na minha opinião, cabe ao professor de artes abrir espaço para as múltiplas estéticas e poéticasas de seus alunos e deixar que as práticas artísticas e as reflexões delas decorrentes cumpram por si só o papel fortalecedor das emoções. Já a arteterapia parece atuar no resgate ou o reequilíbrio da saúde emocional. Então, sobre o universo das emoções e suas relações com a arte, acho que posso dizer que a arte-educação contemporânea cumpre um papel preventivo e a arteterapia atua sobre questões emocionais já instaladas. Entre a arte-educação e a arteterapia, certamente o que existe de mais importante é a própria arte, e essa só se justifica se não for controlada ou funcionalizada. Além disso, que a arte por si só nos salva, não tenho dúvidas.

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